21.6.12

entre tempestades e outros mundos

 É eterna essa tempestade.
 De uma eternidade tão plena que gerou os mais diversos tipos de relevo. No início não havia luz nem nada. Somente eu; à espreita, sob a marquise de uma boutique qualquer. Ai bateu aquela curiosidade de primeira infância de saborear meu primeiro banho de chuva.
 Pus o dedão, como quem não queria nada, canela, coxas... Já não podia me equilibrar. Nem ao menos segurar.
 A tempestade me envolveu, me levando ao seu sabor. Percorri os lugares mais sortidos; senti cheiros, sensações inéditas ao meu eu jovial. Confesso que me diverti, mas algo sempre me doía o peito. Uma pneumonia precoce que só fazia crescer, até então era apenas um desconforto.
 Por mais puro que fosse, resquícios de uma maldade idosa sempre enfeitaram a coroa farpada que repousa ao redor de meu cérebro. Mas eram somente o que eram; resquícios. São somente o que são, não podem e nem vou deixar que fujam de suas castas.
 Mas nessa estrada colorida e cinzenta, viva e fúnebre eu encontrei um ser. Era tão belo, mais opaco impossível. Me apresentei
- Olá! Sou Joe, Joe Tromundo. - Erguendo minha mão direita. Ele apresentou-me um semblante sereno, com um leve sorriso e inclinação de cabeça antes de erguer sua pálida mão em direção à minha já há algum tempo estendida. Ao me tocar, o clima mudou. Nuvens se abriram, andorinhas cantaram. Havia achado um irmão. Aliás, corou-se não só o dia cinza como sua pele que agora apresentava um delicioso tom de veraneio. Estava encantado pela figura sem cabelo, sobrancelhas ou qualquer outro tipo de pelos que pudessem ser vistos pela pouca pele que escapava de seu terno preto riscado de giz.
- Olá. - Me encandeou com um sorriso mais brilhante que o sol intimidado atrás de uma das montanhas da paisagem.
- Como se chama? - Cobria parte dos olhos com uma palma entreaberta.
- Dentes. - Sorri.
- Não, como você se chama. Nunca havia cruzado com ninguém desde que a tempestade me levou da cidade.
- Sou a bruxa má do leste. - Abriu levemente o sorriso radiante outra vez.
- Não brinque comigo. - O encarei. Ele fez o mesmo. Só que sob suas pálidas pálpebras coradas pude notar uma certa malícia. - Como você se chama? - Ele não respondeu, só seguiu em minha direção. E me afastei. E ele se aproximou. E me afastei. E ele se aproximou.

- Qual o seu nome?

 Em sua plenitude, a tempestade, havia criado os mais diversos tipos de relevo. E foi no mais profundo deles, o Canyon de Hades, que eu caí. Pude ouvir ele responder à minha insistente questão quando ainda no ar.

- Amor, Joe, me chamo amor. - Gritou. Senti o impacto de minha coluna contra o chão rochoso. Desacordei.

* * *

- Acorda! Joe! Acorda! - Ouvia gritos por debaixo de meu sono. Abri os olhos aos poucos. - Encontre os sapatos de Rubi! Eles te levarão pra onde você quer.
- Aonde? - Abri os olhos de vez. Vi a silhueta dele desparecer da beira do abismo enquanto sua última frase ecoava por tal lugar. Havia atingido o fundo Canyon, como já caíra em alguns buracos ao longo da tempestade. Mas agora a tempestade havia se mostrado insustentável. Havia não, se mostrou. Pois uma vez que encontrei a personificação do amor, não faço outra coisa senão procurar os tais rubis que me levarão pra longe dele.