15.6.12

a vida na BR-3



Já vivi muitas vidas. Reneguei algumas nas quais me esbaldei, vomitando no prato lambido.


 Almejei muitas vidas. Amaldiçoando a que me encontro, buscando no outro o que só a mim faz sentido. Mirando cegamente um alvo que nem eu sei existir.


 Questionamentos comuns a mim, a todos, aos jovens. Jovialidade boba, besta, estonteante.


 Vivo não a vida desejada, mas o período contemplado pelos anciãos amarrados no marasmo, parada obrigatória da vida em sua interestadual.


 Não vivo a vida desejada, pois já nasci a frente dos outros, estagnado na conveniência do posto mais movimentado que já existiu. Será este o meu destino? Frentistear para os adúlteros ou frustradas que aqui param pra se refrescarem e acabam apodrecendo aos vermes? Pois uma vez aqui, dificilmente se sai.
 Observo meus semelhantes conviventes. Alguns me causam pena, sei de seus potenciais, poderiam daqui sair. Vejo os outros, os que seguiram em frente, com igual tristeza. Sei que, se caso seguisse, sentaria com eles no pátio da escola do sucesso. Sei que nos daríamos bem. Mas o maroto do mapa me escapa os dedos sempre que o tento agarrar.


 Não estou morto.


 Dizem que tal mapa, o maroto, só se abre aos interessados. Mas eu tô! Quero dizer; eu juro que acho que tô interessado!


 Este lugar tá ficando lotado. Coxinhas, ignorantes, falidos. Coxinhas ignorantes falidos... Não suporto lotação. Muito atrito pra pouca magreza, sabe?


 Eu, de fato, já vivi muitas vidas. E, mesmo não estando morto, vivo também não estou.