Meu sorriso não é mais sincero, minha essência se perdeu.
E a culpa é sua.
Minha criança está morta, meu adulto envelheceu.
Mas nunca estive tão lúcido.
As canções que passaram a fazer sentido já me geram asco,
as relações que me soavam impecáveis me causam repulsa.
E a culpa é sua, só sua.
Você não vê? Eu sei que sim.
Sua criança também morreu,
a infantilidade é reação de seu caráter fraco.
Com qualquer outro culparia a doença,
mas a culpa é sua, ela é toda sua.
Pois minha luz se apagou, meu brilho se esvaiu.
Sinto que minha estrela, bem como nós, nunca existiu.
Lágrimas caminham à minha boca e a sua se abre, falsa.
Cabeça nas minhas mãos, como as suas no vazio.
Deve ser feito de plástico; deve alcalinas usar.
Pilhas falhas, muito falhas, sempre prestes a acabar.
Nem o frio da geladeira, nem a corrente da tomada.
Só se carregam com o cheiro de sabão íntimo ou da comida preparada.
Eu não sou de borracha e você esqueceu de me regar.
Logo você?!
Como é fria a estrada, como é escura a rua.
Mas sigo gritando na noite:
"A culpa é sua! A culpa é sua!"