5.5.14

comfortably numb

- Oi. É dessa vez que você vai me ouvir? Eu posso voltar outra hora... Na verdade, não. Eu não posso mais. Ta frio demais por aqui, me deixa entrar só por uns minutos. Eu espero que você entenda o por quê, essa espera forja um sentimento de que quando entrar vai ser incrível, quente e confortável. Mas a rua já me ensinou a ser realista. Então, vai, só por um tempinho. - Uma portinhola se abre na porta. Até a luz parece esquentar meu rosto. - Muito obrigado, o tempo tá começando a fechar e ao menos essa tempestade eu gostaria de evitar. Muito obrigado mesmo. - Digo com um nó na garganta, muita humilhação já presenciei e ter que agradecer por esmolas não me desce facilmente. A portinhola se fecha um pouco. Espero. Provavelmente foi buscar a chave. Não acredito aparentar ser um ladrão, não me negariam estadia, claro que não. Novamente se abre, vejo seu rosto com um sorriso que parece até imaginado e mexendo a cabeça em sinal negativo, à fechando. Voltarei a lembrar daquele sorriso até o esquecer e ele realmente virar uma imagem inventada.
Penso: "É como nos filmes americanos, se fecha durante dois segundos antes de abrir verdadeiramente a porta."
 Espero. Ainda estou esperando. A chuva desce para assombrar à noite. Percebo que talvez seja hora de aprender a roubar. Minha beleza deve servir pra algo, afinal.